Capítulo I
Dádivas a deuses e ancestrais
Em muitas sociedades antigas, o sacrifício era o ato central da religião: algo valioso era dado aos deuses para que a ordem do mundo continuasse. A maioria das oferendas era de animais, cereais ou bebidas. Num pequeno número de Estados, e geralmente em momentos de grande importância, a dádiva era uma vida humana. As vítimas eram quase sempre cativos de guerra, às vezes escravos, e em alguns lugares crianças escolhidas por sua pureza. A prática estava quase sempre ligada à realeza, à fundação de edifícios, ao sepultamento de governantes ou a crises como guerras e fomes.
Um dos primeiros casos mais bem documentados é o da China Shang. Em Anyang, a última capital Shang, ocupada de cerca de 1250 a.C. até a queda da dinastia por volta de 1046 a.C., os túmulos reais guardavam servidores sepultados com seus senhores, e fossas próximas continham os restos de muitas pessoas mortas em ritos para os ancestrais reais. Os reis registravam suas perguntas aos ancestrais em ossos oraculares, indagando, por exemplo, quantos cativos do povo Qiang deveriam ser oferecidos. Estudiosos modernos que contaram essas inscrições chegaram a mais de 13.000 vítimas, um número que reflete o que era proposto na adivinhação, e não uma contagem exata de mortes.
Do outro lado do mundo, os mexicas, ou astecas, fizeram do sacrifício parte de toda uma cosmologia. Seus mitos ensinavam que os deuses tinham dado o próprio sangue para pôr o sol em movimento, e que as oferendas humanas pagavam essa dívida e mantinham o universo vivo. A maioria das vítimas era de cativos capturados na guerra, e algumas guerras foram travadas em parte para obtê-los. Os sacrifícios aconteciam no Templo Mayor de Tenochtitlán, o templo duplo do deus da chuva Tláloc e do deus da guerra Huitzilopochtli, e os crânios das vítimas eram exibidos num grande suporte de madeira, o tzompantli.
Os incas dos Andes praticavam um rito mais raro chamado capacocha. Em ocasiões importantes, como a morte de um governante, crianças de alta posição eram levadas a Cuzco e depois conduzidas a cumes de montanhas sagrados para as divindades locais. Ali eram deixadas como oferendas, ligando as províncias ao centro do império. Seus restos, preservados pelo frio e pela altitude, estão entre as descobertas mais comoventes da arqueologia andina.