Disciplina e devoção
Jejum e abstinência
Como as religiões usam o jejum para disciplinar o corpo, purificar a mente e se aproximar do sagrado, do Ramadã, da Quaresma e do Yom Kippur ao Jejum bahá’í.
Em resumo
- O jejum aparece na maioria das tradições, da abstenção de um único dia a jejuns de um mês inteiro e votos alimentares para a vida toda.
- O Ramadã islâmico e o Jejum bahá’í de Dezenove Dias seguem o sol, com abstenção de toda comida e bebida entre a aurora ou o nascer do sol e o pôr do sol.
- As práticas cristã, hindu, budista e taoísta muitas vezes preferem o jejum parcial – abrir mão da carne ou de certos alimentos, ou não comer depois do meio-dia.
- Algumas tradições impõem limites claros: o budismo rejeita a autonegação extrema, e o ensinamento sique sustenta que o jejum ritual não traz nenhum mérito espiritual.
Ficar sem comer por escolha é uma das disciplinas religiosas mais antigas. O jejum lembra aos fiéis que eles dependem de mais do que o pão; doma o desejo, aguça a oração e expressa o arrependimento pelo mal cometido. Pode ser um ato de luto, uma preparação para uma festa ou uma iniciação, um voto feito por um ente querido ou uma forma de se solidarizar com quem passa fome.
Os jejuns religiosos assumem muitas formas. Alguns são totais, recusando comida e bebida por um tempo determinado; outros abrem mão de certos alimentos, como carne, grãos ou pratos fartos, ou limitam as refeições a certos horários. Muitos são comunitários e sazonais, partilhados por toda uma comunidade e encerrados com uma celebração. As tradições que jejuam também impõem limites: crianças, doentes, idosos, mulheres grávidas e viajantes costumam estar isentos, e o jejum deve andar de mãos dadas com a oração, a generosidade e a bondade, nunca prejudicar o corpo.
Nas diversas tradições
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Vrata, Ekadashi e jejuns festivos
Os jejuns hindus (upavasa) geralmente fazem parte de um vrata, um voto feito a uma divindade, em busca de mérito espiritual ou pelo bem-estar da família. Muitos devotos de Vishnu jejuam no Ekadashi, o décimo primeiro dia de cada quinzena lunar, evitando grãos e feijões. As segundas-feiras podem ser dedicadas a Shiva e as terças a Hanuman, e há jejuns que acompanham festas como o Navaratri e a vigília noturna do Maha Shivaratri. No Karva Chauth, mulheres casadas do norte da Índia jejuam do nascer do sol ao nascer da lua pela longa vida dos maridos. Os jejuns vão da abstinência completa, até de água, à ingestão apenas de “alimentos de jejum” permitidos, como frutas, leite e certas farinhas.
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Uposatha e o Caminho do Meio
Antes de sua iluminação, o Buda praticou jejuns severos e depois os abandonou por serem um extremo, escolhendo o “Caminho do Meio” entre a indulgência e a mortificação. Por isso o budismo valoriza a moderação, e não os jejuns prolongados. Monges e monjas teravada comem apenas entre a aurora e o meio-dia, e os leigos podem acompanhá-los nos dias de uposatha – a lua nova, a lua cheia e as meias-luas – assumindo oito preceitos, entre eles o de não comer depois do meio-dia. Muitos budistas maaianas seguem uma dieta vegetariana, ao menos em certos dias do mês lunar. No budismo tibetano, o retiro de nyungne combina jejum, silêncio e prostrações dedicados a Avalokiteshvara, o bodisatva da compaixão.
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Paryushana e as austeridades
No jainismo, o jejum é uma forma central de tapas, austeridade, um meio de queimar o carma e fortalecer o autocontrole. Durante o Paryushana – oito dias para os jainistas śvetāmbara e dez para os digambara, no fim do verão –, muitos jejuam por um ou mais dias. Um upvas permite apenas água fervida de um nascer do sol ao seguinte; o ayambil permite uma única refeição simples, sem temperos, óleo, laticínios ou açúcar; e muitos jainistas evitam comer depois do pôr do sol durante o ano todo. A festa termina com o perdão, quando os jainistas dizem “Micchami dukkadam”, pedindo desculpas por qualquer mal causado. Alguns jainistas muito idosos ou em estado terminal empreendem a sallekhana, um jejum supervisionado até o fim da vida.
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O abandono do jejum ritual
O siquismo é incomum por deixar de lado o jejum como prática religiosa. Guru Nanak e os Gurus posteriores ensinaram que austeridades, peregrinações e jejuns não trazem mérito se o coração não estiver devotado a Deus, e passagens do Guru Granth Sahib questionam quem deixa o corpo passar fome enquanto a mente permanece a mesma. Os siques aprendem, em vez disso, a viver como chefes de família, ganhar a vida honestamente, lembrar-se de Deus e partilhar o que têm. O langar, a cozinha comunitária gratuita de todo gurdwara, expressa esse ideal: em vez de ficar sem comer, os siques alimentam todos os que chegam, seja qual for sua fé ou condição. Alguns siques, ainda assim, mantêm jejuns herdados dos costumes regionais.
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Yom Kippur e os dias de jejum
O jejum mais sagrado do ano judaico é o Yom Kippur, o Dia da Expiação. Durante cerca de vinte e cinco horas, de antes do pôr do sol até o anoitecer do dia seguinte, os adultos se abstêm de comida e bebida, de se lavar, de se ungir, de calçados de couro e de relações conjugais, passando boa parte do dia na sinagoga, rezando pelo perdão. O Tisha B’Av, que lamenta a destruição dos dois Templos de Jerusalém, também é um jejum de dia inteiro. Vários jejuns menores, da aurora ao anoitecer, recordam outros momentos de tragédia nacional, e o Jejum de Ester antecede o Purim. A lei judaica isenta qualquer pessoa cuja saúde seria posta em risco, já que preservar a vida prevalece sobre quase todos os mandamentos.
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A Quaresma e os tempos de jejum
Os quarenta dias de jejum de Jesus no deserto inspiraram a Quaresma, o tempo de penitência antes da Páscoa. Os cristãos ocidentais a iniciam na Quarta-feira de Cinzas, quando muitos recebem uma cruz de cinzas na testa. Os católicos jejuam na Quarta-feira de Cinzas e na Sexta-feira Santa, fazendo uma refeição completa e duas menores, e se abstêm de carne nas sextas-feiras da Quaresma; muitos cristãos abrem mão de algum luxo durante esse tempo. Os cristãos ortodoxos observam uma Grande Quaresma mais rigorosa, evitando carne, laticínios, peixe, vinho e azeite na maioria dos dias, e também jejuam na maioria das quartas e sextas-feiras e antes de outras grandes festas. Muitos cristãos também fazem um breve jejum antes de receber a Sagrada Comunhão.
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Sawm no Ramadã
O jejum no Ramadã, o nono mês do calendário lunar islâmico, é um dos Cinco Pilares. Da aurora ao pôr do sol, os muçulmanos adultos se abstêm de comida, bebida, fumo e relações conjugais, e se esforçam para evitar a raiva, a fofoca e as más ações. O dia começa com uma refeição antes da aurora (suhur), e o jejum é quebrado ao pôr do sol com o iftar, muitas vezes com tâmaras e água, seguido das orações noturnas (tarawih). Os doentes, os viajantes, os idosos e as mulheres grávidas, lactantes ou menstruadas estão isentos, compensando os dias depois ou alimentando os pobres. O mês termina com a festa do Eid al-Fitr e com esmolas para os necessitados.
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O Jejum de Dezenove Dias
O Jejum bahá’í é observado durante ‘Alá’, “Sublimidade”, o último mês do calendário bahá’í, que geralmente vai de 1º ou 2 de março a 19 ou 20 de março. Do nascer ao pôr do sol, os bahá’ís entre quinze e setenta anos se abstêm de comida e bebida, enquanto os doentes, os viajantes, as mulheres grávidas e lactantes e quem faz trabalho pesado estão isentos. Bahá’u’lláh descreveu o Jejum como um tempo de renovação espiritual: seu propósito é sobretudo a oração, a reflexão e o desprendimento, e a abstinência física simboliza o afastamento dos desejos egoístas. O Jejum termina com a alegre festa de ano-novo do Naw-Rúz, no equinócio da primavera.
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Purificação zhai e bigu
No taoísmo, zhai, que originalmente significava “purificação” ou “jejum”, designa a abstinência de carne, álcool, vegetais de sabor forte e atividade sexual que sacerdotes e participantes observam antes dos grandes rituais; a palavra passou a nomear alguns desses próprios rituais. Uma tradição mais radical, o bigu, “evitar os grãos”, ensinava que os adeptos podiam matar de fome os nocivos “três vermes” que, segundo se acreditava, habitavam o corpo, e viver em vez disso de qi, ervas e respiração controlada, aproximando-se da imortalidade. Monges e monjas da ordem Quanzhen são vegetarianos, e muitos devotos leigos, como os budistas chineses, comem comida vegetariana no primeiro e no décimo quinto dias do mês lunar.
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O jejum nos Mistérios e nas festas
O jejum teve um papel limitado, mas real, na religião grega e romana antiga, muitas vezes em imitação de um mito. Nas Thesmophoria, uma festa ateniense de mulheres em honra de Deméter, o dia do meio era de jejum (Nesteia), recordando a dor da deusa pela filha perdida, Perséfone. Os iniciados nos Mistérios de Elêusis jejuavam e depois quebravam o jejum com o kykeon, uma bebida de cevada, como se dizia que a própria Deméter havia feito. Segundo o historiador Tito Lívio, Roma instituiu em 191 a.C. um jejum em honra de Ceres, a ser observado a cada cinco anos. As regras de pureza antes de consultar um oráculo ou entrar em um santuário também podiam incluir a abstenção de certos alimentos.
Perguntas frequentes
Quem está isento dos jejuns religiosos?
Quase todas as tradições que jejuam dispensam aqueles para quem o jejum poderia ser prejudicial. Crianças, idosos, doentes, mulheres grávidas e lactantes e viajantes costumam estar isentos no islã, no judaísmo, no cristianismo e na fé bahá’í, às vezes compensando os dias depois ou dando esmolas em seu lugar. Quem tem algum problema de saúde geralmente é aconselhado a consultar tanto um médico quanto um mestre religioso.
Por que o Ramadã cai em uma época diferente a cada ano?
O calendário islâmico é puramente lunar, com doze meses de 29 ou 30 dias, por isso seu ano é cerca de onze dias mais curto que o ano solar. O Ramadã, portanto, adianta-se a cada ano, passando por todas as estações em cerca de trinta e três anos. Já a Quaresma está ligada à Páscoa, que segue um cômputo lunissolar, e o Jejum bahá’í é fixado em relação ao equinócio da primavera.
Fontes e leituras adicionais
- Caroline Walker Bynum, Holy Feast and Holy Fast: The Religious Significance of Food to Medieval Women (University of California Press, 1987)
- Ninian Smart, The World's Religions, 2nd edn (Cambridge University Press, 1998)
- John Bowker (ed.), The Oxford Dictionary of World Religions (Oxford University Press, 1997)