Capítulo I
Um pano que aparece na França do século XIV
O Santo Sudário de Turim é um pano de linho com cerca de 4,4 metros de comprimento e 1,1 metro de largura, tecido em sarja espinha de peixe. Nele se vê uma imagem tênue, cor de palha, da frente e das costas de um homem nu, disposto como se o pano tivesse sido dobrado sobre sua cabeça. A figura traz marcas que correspondem à crucificação descrita nos Evangelhos: ferimentos nos pulsos e nos pés, uma ferida no lado, sinais de flagelação e de algo pressionado sobre a cabeça. Muitos cristãos o veneram como o pano funerário de Jesus.
Sua história documentada começa na década de 1350 em Lirey, na Champanhe, onde o cavaleiro Geoffroi de Charny havia fundado uma colegiada. Uma insígnia de peregrino em chumbo dessa época, hoje no Musée de Cluny, em Paris, mostra o pano junto com o brasão dos Charny. Em 1389, Pierre d’Arcis, bispo de Troyes, escreveu um memorando ao papa de Avignon Clemente VII afirmando que um de seus predecessores havia investigado o pano décadas antes e identificado o artista que o pintara. Clemente permitiu que as exposições continuassem, desde que se anunciasse que o pano era uma representação, e não o verdadeiro sudário.
Em 1453, Margarida de Charny o transferiu ao duque Luís de Saboia. Ele foi danificado por um incêndio na capela de Chambéry em 1532, quando prata derretida queimou as camadas dobradas, e freiras clarissas costuraram remendos sobre os buracos em 1534. A Casa de Saboia o levou para Turim em 1578. Ao morrer, em 1983, o ex-rei Umberto II o legou à Santa Sé, e ele é guardado na Catedral de Turim.
Capítulo II
Fotografias, ciência e a datação de 1988
O interesse moderno começou em 1898, quando o fotógrafo Secondo Pia descobriu que suas chapas negativas mostravam a imagem como um positivo nítido, o que sugeriu a muitos que o próprio pano se comporta como um negativo fotográfico. Em 1978, o projeto americano Shroud of Turin Research Project (STURP) o examinou durante cinco dias; seus membros relataram que a imagem está apenas nas fibras mais superficiais e que a tinta não era sua causa principal. O microscopista Walter McCrone, estudando amostras colhidas com fita adesiva no mesmo exame, concluiu, ao contrário, que ele foi pintado com óxido de ferro e vermelhão. O modo como a imagem se formou continua em disputa.
Em 1988, com a aprovação da Igreja, uma tira de um dos cantos foi dividida entre laboratórios em Oxford, Zurique e Tucson, no Arizona. Seus resultados, publicados na revista Nature em 1989, dataram o linho entre 1260 e 1390 d.C. com 95% de confiança, o que se encaixa de forma impressionante nos primeiros registros documentais. A maioria dos cientistas e historiadores aceita isso como forte evidência de uma origem medieval.
Os defensores da autenticidade contestaram o resultado, argumentando que a amostra veio de uma área remendada, que o incêndio de 1532 ou uma contaminação posterior alteraram o carbono ou, numa reanálise estatística dos dados brutos feita em 2019, que as amostras não eram homogêneas. Os laboratórios e muitos especialistas respondem que especialistas em têxteis examinaram o local da amostragem antes do corte e que nenhum efeito proposto se mostrou grande o bastante para deslocar a data em cerca de treze séculos. A Igreja Católica não fez nenhum pronunciamento oficial; em 1998, o papa João Paulo II disse que a Igreja não tem competência específica para decidir essas questões e as deixa aos cientistas.
Capítulo III
Relíquia, ícone e símbolo
Para os fiéis, o Sudário é um foco de oração, e não uma amostra de laboratório. Suas raras exposições públicas, chamadas ostensões, atraem milhões de peregrinos, como aconteceu em 2010 e 2015, e em 2020, durante a pandemia, ele foi mostrado numa celebração de oração televisionada e transmitida pela internet. Os papas recentes falaram dele como um ícone do sofrimento de Cristo, convidando à reflexão, seja qual for a conclusão sobre sua idade.
O Sudário pertence a uma família mais ampla de panos que preservariam os traços de Cristo, como o Véu de Verônica e o Mandylion de Edessa. Alguns autores defenderam que o Sudário e o Mandylion são um só objeto, o que lhe daria uma história muito anterior a Lirey. Os historiadores em geral consideram isso não comprovado, porque as fontes descrevem o Mandylion como a imagem de um rosto num pano pequeno.
O debate produziu um campo de estudo próprio, às vezes chamado sindonologia, do grego sindon, a palavra que os Evangelhos usam para o linho em que Jesus foi envolto. Exposições, documentários e réplicas experimentais feitas com materiais medievais mantêm viva a curiosidade do público. Para muitos visitantes, o Sudário é um lugar onde fé, história e ciência se encontram e onde a discordância respeitosa continua.