Codex of FaithsUm atlas ilustrado da fé

História Estranha · Guerras santas

As Cruzadas

As guerras santas da Igreja latina desde 1095, de Clermont e da tomada de Jerusalém à queda de Acre em 1291, vistas por cristãos, muçulmanos e judeus.

Quando
1095–1291 e depois
Onde
O Mediterrâneo oriental, sobretudo a Síria, a Palestina e o Egito, com campanhas posteriores por toda a Europa

Em números

  • 88 anosem que Jerusalém esteve nas mãos de cristãos latinos após a Primeira Cruzada, de 1099 a 1187
  • cerca de 196 anosdo sermão de Clermont, em 1095, à queda de Acre, em 1291
  • alguns milharesde mortos no saque de Jerusalém em 1099, segundo muitas estimativas modernas (as fontes medievais falam em dezenas de milhares)

Em resumo

  1. I.Em 1095, o papa Urbano II convocou os cristãos do Ocidente a pegar em armas, ajudar o Império Bizantino e libertar Jerusalém, prometendo recompensas espirituais a quem fosse.
  2. II.A Primeira Cruzada tomou Jerusalém em 1099, e Estados latinos sobreviveram no Levante até que os mamelucos conquistaram Acre em 1291.
  3. III.A vitória de Saladino em Hattin e sua retomada de Jerusalém em 1187 desencadearam novas expedições, enquanto a própria cruzada se estendia à Espanha, ao Báltico, ao sul da França e aos Bálcãs.
  4. IV.Para os judeus da Europa e para os muçulmanos e cristãos orientais do Oriente Próximo, as cruzadas muitas vezes significaram massacre e guerra, e seu sentido ainda hoje é discutido e frequentemente simplificado.

Linha do tempo

  1. 1095O papa Urbano II prega no Concílio de Clermont, convocando uma peregrinação armada ao Oriente.
  2. 1096Bandos de cruzados massacram comunidades judaicas na Renânia, em Speyer, Worms e Mainz.
  3. 1099Os cruzados tomam Jerusalém em 15 de julho.
  4. 1144Zengi toma Edessa, o que provoca a Segunda Cruzada (1147–1149), que fracassa diante de Damasco.
  5. 1187Saladino derrota o exército do Reino de Jerusalém em Hattin e retoma Jerusalém em outubro.
  6. 1189–1192A Terceira Cruzada retoma Acre, mas não Jerusalém; termina com uma trégua entre Saladino e Ricardo I.
  7. 1204A Quarta Cruzada saqueia Constantinopla, uma cidade cristã.
  8. 1291O sultão mameluco al-Ashraf Khalil conquista Acre, pondo fim ao reino latino no continente.

O que os registros mostram

  • O sermão de Urbano II em Clermont, em novembro de 1095, é relatado em várias crônicas, embora nenhuma registre suas palavras exatas.
  • Os participantes faziam votos, usavam uma cruz de tecido e recebiam a promessa de remissão da penitência devida por seus pecados.
  • A Primeira Cruzada tomou Jerusalém em julho de 1099 com grande perda de vidas entre seus habitantes muçulmanos e judeus.
  • Crônicas hebraicas descrevem os ataques aos judeus da Renânia em 1096 e a escolha de muitos de morrer em vez de serem batizados à força.
  • Saladino tomou Jerusalém por rendição negociada em 1187 e permitiu que muitos habitantes pagassem o próprio resgate.

O que diz a lenda

  • Costuma-se dizer que o sangue em Jerusalém, em 1099, chegou aos tornozelos ou aos joelhos dos cruzados; a imagem ecoa o livro do Apocalipse e é um exagero literário.
  • Uma ideia popular sustenta que os cruzados eram filhos mais novos sem terras em busca de fortuna, mas os estudos sobre o financiamento das cruzadas mostram que partir era caríssimo e que muitos venderam terras para pagar a viagem.
  • As cruzadas são numeradas de um a nove nos livros escolares, mas a numeração é uma convenção posterior, que os contemporâneos não usavam.
  • Ricardo I e Saladino são muitas vezes retratados frente a frente; as fontes dizem que negociaram por meio de emissários e nunca se encontraram.
  • Alguns afirmam que as cruzadas foram lembradas com amargura em todo o mundo muçulmano desde então; muitos historiadores argumentam que elas receberam atenção relativamente limitada na historiografia muçulmana até o século XIX.

Personagens principais

  • Urbano IIPapa (1088–1099), pregou a Primeira Cruzada em Clermont, em 1095
  • Godofredo de BulhãoLíder da Primeira Cruzada, primeiro governante latino de Jerusalém (1099–1100)
  • SaladinoSultão do Egito e da Síria (m. 1193), vencedor em Hattin, retomou Jerusalém em 1187
  • Ricardo IRei da Inglaterra (r. 1189–1199), um dos líderes da Terceira Cruzada
  • Usama ibn MunqidhNobre e escritor muçulmano sírio (1095–1188), cujas memórias descrevem os francos

Capítulo I

De Clermont a Jerusalém

Em março de 1095, emissários do imperador bizantino Aleixo I Comneno pediram ao papa Urbano II soldados ocidentais para combater os turcos seljúcidas, que haviam invadido a maior parte da Anatólia. Em novembro, num concílio da Igreja em Clermont, no centro da França, Urbano respondeu com algo muito maior. Os cronistas que mais tarde registraram seu sermão concordam que ele exortou os cavaleiros a parar de lutar entre si, marchar para o leste para ajudar seus irmãos cristãos e libertar Jerusalém, e que ofereceu a remissão da penitência pelos pecados a quem fosse. Conta-se que a multidão respondeu “Deus o quer”. Milhares fizeram um voto e costuraram uma cruz de tecido na roupa.

A resposta foi esmagadora e em parte escapou ao controle da Igreja. Na primavera de 1096, bandos populares, alguns seguindo o pregador Pedro, o Eremita, partiram antes dos exércitos principais. Vários deles se voltaram contra as comunidades judaicas da Renânia no caminho. Os exércitos dos príncipes, liderados por figuras como Godofredo de Bulhão, Raimundo de Toulouse e Boemundo de Tarento, reuniram-se em Constantinopla em 1097. Tomaram Niceia, atravessaram a Anatólia e suportaram um extenuante cerco de Antioquia, de outubro de 1097 a junho de 1098, onde a fome e as doenças mataram muitos.

Em 15 de julho de 1099, os sobreviventes tomaram Jerusalém de assalto. Fontes cristãs e muçulmanas descrevem igualmente um massacre dos habitantes muçulmanos e judeus da cidade, embora seus números sejam exagerados. Cronistas latinos escreveram sobre sangue que subia até os joelhos, imagem tomada do livro do Apocalipse, e o historiador muçulmano posterior Ibn al-Athir deu o número de 70.000. Muitos historiadores modernos, com base em cartas encontradas na Genizá do Cairo que mencionam o resgate de cativos, acham mais provável que os mortos tenham sido alguns milhares. Os vencedores fundaram quatro Estados latinos: Jerusalém, Antioquia, Trípoli e Edessa.

Capítulo II

Saladino e as cruzadas posteriores

Os Estados latinos dependiam de um fluxo constante de peregrinos e combatentes vindos do Ocidente e das divisões de seus vizinhos muçulmanos. Novas ordens militares, os hospitalários e os templários, assumiram boa parte da defesa; a história dos templários, e das lendas que cresceram em torno deles, é contada à parte. Quando Zengi, governante de Mossul e Alepo, conquistou Edessa em 1144, Bernardo de Claraval pregou uma Segunda Cruzada, que desmoronou em 1148 diante das muralhas de Damasco.

O filho de Zengi, Nur al-Din, e depois Saladino, um oficial curdo que se tornou sultão do Egito e da Síria, unificaram boa parte da região e apresentaram a luta como uma jihad. Em 4 de julho de 1187, Saladino destruiu o exército do Reino de Jerusalém nos Cornos de Hattin, perto do mar da Galileia. Jerusalém se rendeu em 2 de outubro. Ao contrário dos conquistadores de 1099, Saladino deixou que os habitantes pagassem o próprio resgate, e muitos que não podiam pagar foram libertados, embora milhares de pobres tenham sido escravizados.

A Terceira Cruzada (1189–1192) trouxe os reis da Inglaterra e da França e o imperador alemão Frederico Barbarossa, que se afogou num rio da Anatólia no caminho. Ricardo I ajudou a retomar Acre e venceu batalhas, mas não tentou sitiar Jerusalém, e a guerra terminou numa trégua. A Quarta Cruzada se desviou gravemente: arrastada por dívidas e pela política bizantina, saqueou Constantinopla em 1204, aprofundando a ruptura entre cristãos latinos e gregos. Expedições posteriores atacaram o Egito, e o imperador Frederico II recuperou Jerusalém por tratado em 1229, só para perdê-la novamente em 1244. O rei Luís IX da França liderou duas cruzadas, foi capturado no Egito em 1250 e morreu diante de Túnis em 1270. Em 1291, os mamelucos tomaram Acre, e as cidades costeiras restantes foram abandonadas em poucos meses.

As cruzadas não terminaram aí. Os papas concederam os mesmos privilégios para guerras contra os muçulmanos na Espanha, os pagãos do Báltico, os cátaros do Languedoc, inimigos políticos na Itália e, mais tarde, os turcos otomanos, em batalhas como Nicópolis, em 1396, e Varna, em 1444. A pregação e os impostos de cruzada continuaram até o século XVI.

Capítulo III

Outros lados da história

Para os judeus da Europa ocidental, a Primeira Cruzada começou com uma catástrofe. Em maio e junho de 1096, bandos de cruzados e de habitantes das cidades atacaram as comunidades de Speyer, Worms, Mainz e outras cidades. Alguns bispos tentaram protegê-las, com sucesso limitado. Crônicas hebraicas escritas nas décadas seguintes lembram os que foram mortos e os que escolheram a morte em vez do batismo forçado como mártires que santificaram o nome de Deus. A violência se repetiu com cruzadas posteriores, como na Inglaterra em 1189–1190, quando os judeus de York morreram no castelo real.

Os escritores muçulmanos de início viram os recém-chegados como mais um exército invasor e os chamaram simplesmente de francos. A rivalidade política entre os príncipes seljúcidas e o califado fatímida do Egito ajudou a Primeira Cruzada a ter êxito. Ao longo do século XII, pregadores e governantes reavivaram o ideal da guerra santa, e a reconquista de Jerusalém por Saladino se tornou um triunfo celebrado. A vida cotidiana também envolvia comércio, tréguas e convivência local; as memórias de Usama ibn Munqidh descrevem os costumes francos com curiosidade e desdém. Os cristãos orientais, gregos, armênios e siríacos, viveram os cruzados como aliados, senhores ou saqueadores, conforme a época e o lugar.

Capítulo IV

Mitos antigos e novos

Poucos acontecimentos medievais são tão invocados hoje, e tão simplificados. Uma imagem popular mostra os cruzados como filhos mais novos cínicos em busca de terras e saque. Pesquisas sobre cartas de doação e testamentos, sobretudo de Jonathan Riley-Smith, mostram que as cruzadas eram enormemente caras, que muitas famílias venderam ou hipotecaram propriedades para partir e que os motivos religiosos eram centrais, ao lado da ambição e do gosto pela aventura. Outra imagem apresenta as cruzadas ou como o primeiro ato do colonialismo europeu ou como uma guerra puramente defensiva; os historiadores em geral veem ambos os rótulos como anacrônicos para um movimento medieval com sua própria lógica de peregrinação e penitência.

A ideia de que as cruzadas deixaram uma memória contínua e ardente no mundo muçulmano também é duvidosa. Os historiadores muçulmanos medievais as trataram como um episódio entre muitos, e os termos árabes para “as guerras das cruzadas” só se tornaram comuns no século XIX, quando a expansão colonial europeia deu novo sentido ao antigo conflito. Desde então, as cruzadas foram reivindicadas por nacionalistas, funcionários coloniais, romancistas, cineastas e militantes modernos de muitos lados.

Os historiadores destacam que as cruzadas não foram nem simplesmente heroicas nem simplesmente bárbaras. Foram uma longa série de guerras moldadas pela fé, pelo medo, pela política e pelo dinheiro, que trouxeram grande sofrimento a judeus, muçulmanos e cristãos orientais, e a muitos dos próprios cruzados.

Onde aconteceu

10° L30° L 30° N40° N Clermont · Novembro de 1095 Clermont: Novembro de 1095 Constantinopla · 1096–1097 Constantinopla: 1096–1097 Antioquia · 1097–1098 Antioquia: 1097–1098 Jerusalém · Julho de 1099 Jerusalém: Julho de 1099 Hattin · Julho de 1187 Hattin: Julho de 1187 Acre · 1191 e 1291 Acre: 1191 e 1291 Onde aconteceu Onde começou Lugares posteriores N
  1. Novembro de 1095 Clermont
  2. 1096–1097 Constantinopla
  3. 1097–1098 Antioquia
  4. Julho de 1099 Jerusalém
  5. Julho de 1187 Hattin
  6. 1191 e 1291 Acre

Perguntas frequentes

Por que as cruzadas começaram?

A causa imediata foi um pedido de ajuda militar do imperador bizantino Aleixo I contra os turcos seljúcidas. Urbano II o transformou num chamado para libertar Jerusalém, fundindo peregrinação, penitência e guerra santa.

Quem venceu as cruzadas?

Na Terra Santa, as potências muçulmanas, já que os últimos redutos cruzados caíram em 1291. Em outros lugares as cruzadas tiveram êxitos duradouros, por exemplo na Península Ibérica e no Báltico.

Os cruzados se chamavam de cruzados?

No início, não. Falavam de peregrinos, dos marcados com a cruz (crucesignati) e da jornada ou passagem; as palavras para cruzada só entraram em uso aos poucos, a partir do fim do século XII.

Quantas cruzadas houve?

Os livros escolares costumam contar oito ou nove grandes expedições ao Oriente entre 1095 e 1272, mas houve muitas menores, além de cruzadas na Europa, por isso qualquer número é uma convenção.

Fontes e leituras adicionais

  1. Jonathan Riley-Smith, The Crusades: A History (3rd edn, Bloomsbury, 2014)
  2. Christopher Tyerman, God’s War: A New History of the Crusades (Allen Lane, 2006)
  3. Carole Hillenbrand, The Crusades: Islamic Perspectives (Edinburgh University Press, 1999)
  4. Robert Chazan, European Jewry and the First Crusade (University of California Press, 1987)
  5. Thomas Asbridge, The Crusades: The War for the Holy Land (Simon & Schuster, 2010)