Codex of FaithsUm atlas ilustrado da fé

Anjos, Demônios e Espíritos · Espíritos e outros seres

As valquírias

As valquírias do mito nórdico eram as “escolhedoras dos mortos” de Odin, que decidiam quem caía em batalha e o levavam ao Valhalla, depois reimaginadas por Wagner.

Quando
do século X até hoje
Onde
Escandinávia, Islândia e o mundo viking

Em resumo

  1. I.Na poesia e nas sagas nórdicas, as valquírias são espíritos femininos a serviço de Odin, que escolhem quais guerreiros morrem em batalha e os levam a seu salão, o Valhalla.
  2. II.Seu nome significa “escolhedoras dos mortos”, e as fontes mais antigas as representam como poderes de guerra ferozes, até aterrorizantes, além de copeiras que servem hidromel aos heróis mortos.
  3. III.Poemas heroicos também falam de valquírias que amam homens mortais, sobretudo Brynhildr, cuja história com Sigurd se tornou uma das grandes tragédias do Norte medieval.
  4. IV.Quase todas as fontes escritas são posteriores à conversão da Escandinávia ao cristianismo, e a imagem conhecida de donzelas de armadura a cavalo deve muito às óperas de Richard Wagner, do século XIX.

Linha do tempo

  1. c. década de 950O poema memorial Eiríksmál imagina Odin preparando o Valhalla para receber o rei morto Érico Machado Sangrento.
  2. c. década de 960O Hákonarmál de Eyvindr skáldaspillir descreve as valquírias Göndul e Skögul, enviadas por Odin para escolher o rei Haakon, o Bom.
  3. 1014O arcebispo inglês Wulfstan, em seu Sermão do Lobo, inclui as wælcyrian entre os malfeitores que afligem a Inglaterra, o que mostra que a palavra era conhecida no inglês antigo.
  4. c. 1220Snorri Sturluson escreve a Edda em prosa, descrevendo valquírias que servem no Valhalla e cavalgam para todas as batalhas.
  5. c. 1270O manuscrito Codex Regius preserva os poemas da Edda poética, entre eles os cantos de Helgi e de Sigrdrífa.
  6. 1870Die Walküre, de Wagner, estreia em Munique, seguida do ciclo completo do Anel em Bayreuth, em 1876.

O que os registros mostram

  • A palavra nórdica antiga valkyrja combina valr, os mortos no campo de batalha, e uma forma do verbo escolher.
  • As principais fontes são poemas escáldicos do século X, os poemas éddicos preservados num manuscrito de cerca de 1270, a Edda em prosa de Snorri e as sagas.
  • Os poemas dão muitos nomes de valquírias, como Hildr, Göndul, Skögul e Hrist, vários dos quais significam “batalha” ou “guerra”.
  • Pedras pintadas de Gotland, como a pedra de Tjängvide, mostram uma mulher oferecendo um chifre a um cavaleiro que chega, cena amplamente lida como uma acolhida no Valhalla.
  • O cognato em inglês antigo wælcyrge aparece em glosas para figuras do mito clássico, como as Fúrias, o que sugere um sentido mais sombrio e demoníaco no uso antigo.

O que diz a lenda

  • As valquírias muitas vezes são imaginadas como anjos gentis que levam os mortos para o céu. As fontes mais antigas fazem delas poderes sinistros da matança, e sua beleza vem sobretudo de poemas heroicos posteriores.
  • Diz-se que todo guerreiro morto em batalha ia para o Valhalla. Os poemas falam de guerreiros escolhidos, e um deles diz que Freyja recebe metade dos mortos em seu salão, Fólkvangr.
  • Os elmos alados e as couraças das imagens populares vêm da ópera e da arte do século XIX, não de fontes da era viking.
  • As valquírias às vezes são tratadas como donzelas-escudeiras históricas. Elas pertencem ao mito e à poesia; se mulheres reais lutaram nos exércitos vikings é um debate arqueológico à parte.

Personagens principais

  • Eyvindr skáldaspillirPoeta da corte norueguesa do século X cujo Hákonarmál mostra duas valquírias convocando o rei Haakon, o Bom, ao Valhalla
  • Snorri SturlusonChefe e escritor islandês (1179–1241) cuja Edda em prosa descreve as funções das valquírias e enumera seus nomes
  • Richard WagnerCompositor alemão (1813–1883) cuja ópera Die Walküre e sua “Cavalgada das Valquírias” criaram a imagem moderna

Poderes, sinais e proteções

  • Escolher os mortos

    Odin envia as valquírias às batalhas para decidir quem vai vencer e quem vai morrer. Os poemas as mostram cavalgando sobre o campo de batalha, às vezes pelos ares e sobre o mar.

  • Levar os heróis ao Valhalla

    Os mortos escolhidos são conduzidos ao Valhalla, onde banqueteiam e lutam todos os dias enquanto aguardam o Ragnarök. Um poema diz que Freyja leva metade dos mortos para seu próprio salão.

  • Copeiras dos mortos

    No Valhalla, as valquírias servem hidromel e cerveja aos guerreiros. Pequenas figuras de prata de mulheres segurando um chifre de beber, encontradas na Escandinávia da era viking, costumam ser interpretadas como valquírias.

  • Tecelãs do destino

    No poema Darraðarljóð, da Njáls saga, doze valquírias tecem o desfecho de uma batalha num tear sinistro, o que as liga às Nornas, que moldam o destino.

  • Donzelas-cisne

    Alguns poemas dão às valquírias mantos de cisne ou as ligam às donzelas-cisne capazes de tirar sua forma de penas, como na Canção de Völundr.

Capítulo I

Escolhedoras dos mortos

A palavra valquíria vem do nórdico antigo valkyrja, “escolhedora dos mortos”. O valr era o monte de mortos num campo de batalha, e as valquírias eram os poderes que decidiam quem se juntaria a ele. Por trás delas talvez estejam ideias germânicas muito antigas de espíritos femininos da guerra e do destino. A palavra em inglês antigo wælcyrge era usada em glosas para as Fúrias e para Belona, a deusa romana da guerra, e o arcebispo Wulfstan, em 1014, incluiu as wælcyrian entre as pessoas perversas que afligiam a Inglaterra, talvez no sentido de feiticeiras. Nesses usos antigos, a palavra soa sombria, não romântica.

Uma dificuldade atravessa todos os relatos sobre as valquírias. Os povos nórdicos que acreditavam nelas quase não deixaram escritos além de breves inscrições rúnicas. Os poemas que as descrevem foram compostos oralmente e postos por escrito na Islândia no século XIII, depois de mais de dois séculos de cristianismo. Alguns poemas da corte são mais antigos: o Eiríksmál, da década de 950, e o Hákonarmál, da década de 960, imaginam ambos reis chegando ao Valhalla. No Hákonarmál, o poeta Eyvindr descreve duas valquírias, Göndul e Skögul, enviadas por Odin “para escolher entre os reis”, que dizem ao moribundo Haakon que ele irá ter com os deuses.

A arqueologia oferece algumas imagens. Pequenos pingentes de prata da era viking mostram mulheres de vestido longo segurando um chifre de beber, e pedras pintadas da ilha de Gotland mostram uma mulher recebendo um cavaleiro com um chifre. Os estudiosos muitas vezes interpretam essas figuras como valquírias acolhendo os mortos, embora a identificação não possa ser provada.

Capítulo II

As donzelas de Odin

Nos poemas mitológicos, as valquírias são servas de Odin, o deus da guerra, da poesia e dos mortos. Cavalgam para as batalhas sob seu comando, decidem quem vai cair e levam os guerreiros escolhidos, os einherjar, ao Valhalla. Ali os mortos se banqueteiam com javali e hidromel e lutam todos os dias por esporte, à espera de combater ao lado dos deuses no Ragnarök, o fim do mundo. O poema Grímnismál acrescenta que Freyja escolhe metade dos mortos para seu próprio salão, Fólkvangr.

No Valhalla, as valquírias servem bebida aos guerreiros. Snorri Sturluson, escrevendo por volta de 1220, explica que Odin as envia a todas as batalhas, que elas concedem a vitória e que três delas, Gunnr, Róta e Skuld, cavalgam para escolher os mortos. Os poemas trazem longas listas de nomes, muitos deles simplesmente palavras para batalha: Hildr e Gunnr significam “batalha”, Göndul talvez “a que empunha a varinha”, Skögul “a que sacode” ou “a furiosa”.

Algumas fontes são bem mais sombrias. No poema Darraðarljóð, preservado na Njáls saga, um homem em Caithness vê doze valquírias tecendo num tear feito de armas e de restos dos mortos, cantando a batalha de Clontarf, de 1014, e decidindo seu desfecho. Aqui as valquírias se parecem com as Nornas, que fiam o destino humano. Outras passagens as ligam aos corvos e aos lobos, os animais do campo de batalha. As valquírias da crença antiga talvez fossem tão temidas quanto admiradas.

Capítulo III

Brynhildr e os heróis

Nos poemas heroicos, as valquírias se tornam mais humanas. Várias se apaixonam por homens mortais. Nos cantos de Helgi, a valquíria Sigrún protege o herói Helgi em batalha, casa-se com ele e, depois de sua morte, visita seu túmulo para passar uma noite com ele antes que ele volte cavalgando ao Valhalla. Na Canção de Völundr, três donzelas-cisne, descritas como valquírias, vivem sete anos com três irmãos antes de partir voando.

A mais famosa é Brynhildr. No poema Sigrdrífumál, uma valquíria chamada Sigrdrífa conta ao herói Sigurd que Odin a castigou com um sono sem fim por ter dado a vitória ao rei errado, e que ela jurou casar-se apenas com um homem que não conhecesse o medo. Sigurd atravessa a cavalo a muralha de fogo que a cerca e a desperta. A tradição posterior, sobretudo a Völsunga saga, do século XIII, a identifica com Brynhildr. Sigurd é enganado e a conquista para outro homem, Gunnar, e quando Brynhildr descobre o engano ela provoca a morte de Sigurd e depois tira a própria vida. A história, contada também, de outra forma, no Nibelungenlied alemão, tornou-se uma das grandes tragédias da Europa medieval.

Esses poemas foram postos por escrito por cristãos, e os estudiosos debatem quanto refletem a crença pré-cristã e quanto refletem invenção literária. O que está claro é que a figura passou de um terrível espírito da matança a uma heroína nobre e trágica.

As sagas acrescentam mais alguns vislumbres. Em algumas, mulheres semelhantes a valquírias aparecem em sonhos para avisar um guerreiro de sua morte próxima, ou cavalgam pelo céu antes de uma batalha. Figuras aparentadas, as dísir e as fylgjur, espíritos guardiões femininos ligados a famílias ou a indivíduos, se sobrepõem às valquírias em função, e as fronteiras entre elas não são nítidas. Estudiosos como Rudolf Simek e John Lindow enfatizam que a tradição nórdica não mantinha categorias organizadas: os mesmos nomes e papéis podiam passar entre deusas, espíritos guardiões, valquírias e mulheres heroicas. Nossa definição moderna e arrumada da valquíria é em parte produto dos escritores medievais e dos editores modernos que organizaram essas fontes dispersas.

Capítulo IV

As valquírias hoje

A valquíria moderna foi criada em grande parte no século XIX. Pintores românticos como Peter Nicolai Arbo as mostraram cavalgando por céus tempestuosos, e Richard Wagner colocou Brünnhilde, sua versão de Brynhildr, no centro de seu ciclo de quatro óperas O Anel do Nibelungo. Die Walküre estreou em Munique em 1870, e o ciclo completo em Bayreuth em 1876. Sua “Cavalgada das Valquírias” é uma das peças de música clássica mais reconhecíveis, usada de forma célebre no filme Apocalypse Now, de 1979. A imagem da soprano corpulenta de elmo com chifres ou asas vem das encenações dessa época.

Hoje as valquírias aparecem em quadrinhos, filmes e videogames, da Valquíria da Marvel à série God of War, e a palavra dá nome a navios, aviões e equipes esportivas. Alguns praticantes modernos da religião nórdica revivida honram Odin e suas valquírias, enquanto a maioria das pessoas as conhece como figuras da literatura. Por trás das muitas versões estão os poemas antigos, nos quais as valquírias encarnam o sentimento nórdico de que a morte em batalha era escolhida, honrada e governada pelo destino.

Perguntas frequentes

O que significa valquíria?

A palavra nórdica antiga valkyrja significa “escolhedora dos mortos”. Refere-se à sua tarefa de decidir quais guerreiros morrem em batalha.

O que as valquírias faziam na mitologia nórdica?

Serviam a Odin escolhendo quem cairia em batalha e conduzindo os mortos escolhidos ao Valhalla, onde também lhes serviam hidromel. Alguns poemas heroicos falam de valquírias que se apaixonaram por heróis mortais.

Qual é a valquíria mais famosa?

Brynhildr, que aparece na Völsunga saga e em poemas éddicos. Odin a castiga com um sono atrás de uma muralha de fogo, e o herói Sigurd a desperta.

Fontes e leituras adicionais

  1. Rudolf Simek, Dictionary of Northern Mythology (D. S. Brewer, 1993)
  2. John Lindow, Norse Mythology: A Guide to the Gods, Heroes, Rituals, and Beliefs (Oxford University Press, 2001)
  3. Carolyne Larrington (trans.), The Poetic Edda (Oxford World’s Classics, 2nd edn, 2014)
  4. Jenny Jochens, Old Norse Images of Women (University of Pennsylvania Press, 1996)
  5. H. R. Ellis Davidson, Gods and Myths of Northern Europe (Penguin, 1964)