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Qual é a Diferença? · Jainismo

Jainismo digambara e svetambara

Monges digambaras renunciam a toda roupa; svetambaras vestem branco. Como as duas tradições jainistas diferem na vida monástica, nas mulheres e nas escrituras.

Digambaras
Svetambaras

Lado a lado

AspectoDigambarasSvetambaras
Roupa dos mongesOs monges plenamente iniciados andam nus como sinal de total desapego; as monjas usam sáris brancos.Monges e monjas usam túnicas brancas sem costura.
Libertação das mulheresUma mulher precisa renascer como homem antes de poder alcançar a libertação.As mulheres podem alcançar a libertação nesta vida.
O décimo nono TirthankaraMallinatha era um homem.Malli era uma mulher, prova de que as mulheres podem chegar ao estado mais elevado.
EscriturasConsidera-se que o cânon original se perdeu; a autoridade está em textos como o Shatkhandagama e as obras de Kundakunda.Um cânon de Agamas, 45 textos na linha que cultua imagens, posto por escrito em Valabhi no século V.
Imagens dos templosAs imagens dos Tirthankaras são nuas, de olhos baixos e sem ornamentos.As imagens mostram uma veste inferior, muitas vezes têm olhos incrustados e podem ser adornadas com joias.
Vida de MahaviraNunca se casou e renunciou ao mundo ainda jovem.Casou-se com Yashoda e teve uma filha antes de renunciar ao mundo.
Os oniscientes comem?Um ser plenamente iluminado (kevalin) já não precisa de alimento.Um kevalin continua a se alimentar enquanto está no corpo.
Refeições dos mongesFeitas uma vez por dia, em pé, com as mãos em concha.Recolhidas em tigelas em várias casas e comidas no alojamento.
Principais regiõesKarnataka, Maharashtra, Madhya Pradesh e partes do Rajastão e de Uttar Pradesh.Gujarat, Rajastão, Mumbai e o Punjab, com uma grande diáspora.
Principais subgruposBisapanthi, Terapanthi (digambara) e os Taranapanthi, que não usam imagens.Murtipujaka (que cultuam imagens), Sthanakavasi e Terapanthi (svetambara).

O que os dois têm em comum

  • Ambas reverenciam os mesmos vinte e quatro Tirthankaras, de Rishabha a Mahavira, como mestres que venceram as paixões e mostraram o caminho da libertação.
  • Ambas ensinam que todo ser vivo tem uma alma (jiva) sobrecarregada pelo karma e que a libertação vem pela fé correta, pelo conhecimento correto e pela conduta correta.
  • Ambas exigem dos monásticos os cinco grandes votos de não violência, veracidade, não roubar, castidade e desapego.
  • Ambas aceitam o Tattvartha Sutra de Umasvati, em versões ligeiramente diferentes, como resumo da doutrina jainista, e ambas recitam o mantra Namokar.
  • Ambas celebram no fim do verão o festival de Paryushana (agosto ou setembro), um tempo de jejum e de perdão mútuo, embora em dias diferentes.

Em resumo

  1. I.O jainismo tem duas tradições principais, a digambara, “vestida de céu”, cujos monges renunciam a toda roupa, e a svetambara, “vestida de branco”, cujos monges e monjas usam simples túnicas brancas.
  2. II.Cada tradição conta sua própria história da separação, mas os historiadores veem uma divergência gradual ao longo de vários séculos, que se tornou uma divisão estável por volta do século V d.C.
  3. III.Além da roupa, diferem quanto a se uma mulher pode alcançar a libertação em seu corpo atual, quanto a quais escrituras têm autoridade, quanto a detalhes da vida de Mahavira e quanto à aparência das imagens dos templos.
  4. IV.Ambas compartilham o núcleo do ensinamento jainista, os vinte e quatro Tirthankaras, a não violência, os cinco votos e o objetivo de libertar a alma do karma, e hoje ambas têm subdivisões.

O que os registros mostram

  • As duas tradições dão relatos diferentes da separação, e suas próprias narrativas foram postas por escrito séculos depois dos acontecimentos que descrevem.
  • Inscrições e imagens de Mathura dos primeiros séculos d.C. mostram que a comunidade já reunia práticas diferentes quanto à roupa.
  • As escrituras svetambaras foram editadas e postas por escrito num concílio em Valabhi, no Gujarat, tradicionalmente datado de 453 ou 466 d.C.
  • Por volta do século V d.C. a divisão estava consolidada, e um terceiro grupo, os yapaniyas, que combinavam traços de ambas, desapareceu mais tarde.

Equívocos comuns

  • Costuma-se pensar que todos os monásticos jainistas andam nus. Só os monges digambaras plenamente iniciados o fazem; as monjas digambaras e todos os monges e monjas svetambaras usam roupa.
  • A separação às vezes é apresentada como um único acontecimento dramático. As histórias de uma grande fome ou de um monge rebelde pertencem à memória própria de cada tradição; os historiadores veem um lento afastamento de caminhos.
  • Às vezes se supõe que os dois lados discordam em doutrinas fundamentais. Suas diferenças dizem respeito à prática monástica, às escrituras e a certas histórias, enquanto o ensinamento central sobre o karma, a alma e a não violência é compartilhado.

Capítulo I

Vestidos de céu e vestidos de branco

O jainismo faz remontar seu ensinamento atual a Mahavira, o vigésimo quarto Tirthankara, que a tradição situa no século VI a.C. e muitos historiadores no século V. O próprio Mahavira é descrito como alguém que abandonou as roupas, mas sua comunidade logo reuniu tanto ascetas nus quanto ascetas que usavam pano. Ao longo dos séculos seguintes, esses dois modos de vida se cristalizaram nas duas grandes tradições do jainismo, a digambara, “vestida de céu”, e a svetambara, “vestida de branco”.

Cada tradição lembra a separação de modo diferente. O relato digambara fala de uma fome de doze anos em Magadha, na época do imperador Chandragupta Maurya, por volta de 300 a.C. O ancião Bhadrabahu levou muitos monges para o sul, até Shravanabelagola, em Karnataka, onde mantiveram a regra estrita da nudez. Os que ficaram no norte, diz-se, relaxaram as regras, começaram a usar pano branco e compilaram escrituras que os monges do sul não aceitaram. O relato svetambara situa a ruptura cerca de seis séculos depois da morte de Mahavira, quando um monge chamado Shivabhuti insistiu em abandonar toda roupa e fundou a linhagem digambara.

Os historiadores tratam os dois relatos como tradições posteriores, escritas para explicar uma divisão que já existia. Imagens e inscrições de Mathura dos primeiros séculos d.C. sugerem uma comunidade em que práticas diferentes coexistiam. O passo decisivo do lado svetambara veio quando suas escrituras foram editadas e postas por escrito num concílio em Valabhi, no Gujarat, tradicionalmente datado de 453 ou 466 d.C. Nessa altura, as duas tradições reconheciam textos diferentes, linhagens de mestres diferentes e regras monásticas diferentes. Um terceiro grupo, os yapaniyas, combinava a nudez digambara com as visões svetambaras sobre as mulheres e as escrituras, mas desapareceu na Baixa Idade Média.

Capítulo II

Roupa, mulheres e escrituras

A diferença mais visível diz respeito à roupa. Para os digambaras, o voto de desapego deve ser total: um monge que conserva nem que seja uma tanga continua apegado ao mundo. Por isso, um monge digambara plenamente iniciado anda nu, possui apenas um espanador de penas de pavão para afastar delicadamente os insetos e um pote de água, e come uma vez por dia, em pé, com as mãos em concha. Os svetambaras sustentam que túnicas brancas simples, tigelas e uma vassourinha de lã são instrumentos da vida ascética e não posses, e que os próprios seguidores de Mahavira usavam pano.

Isso leva diretamente à questão das mulheres. Como as mulheres não podem andar nuas em sociedade, os mestres digambaras concluíram que uma mulher não pode empreender a renúncia completa necessária para a libertação e precisa primeiro renascer como homem. As mulheres digambaras podem se tornar monjas, vestindo sáris brancos, e avançar muito no caminho. Os svetambaras ensinam que as mulheres podem alcançar a libertação nesta mesma vida e sustentam que Malli, o décimo nono Tirthankara, era uma mulher. As monjas svetambaras são muito mais numerosas que os monges.

As tradições também discordam sobre as escrituras. Os svetambaras aceitam um cânon de Agamas escritos na língua ardhamagadhi; os murtipujakas, que cultuam imagens, contam 45 textos, enquanto os sthanakavasis e os terapanthis aceitam 32. Os digambaras sustentam que o cânon original se perdeu aos poucos e dão autoridade, em vez disso, a obras posteriores como o Shatkhandagama e os escritos do mestre Kundakunda, cujo Samayasara é especialmente reverenciado. Ambos aceitam o Tattvartha Sutra de Umasvati.

Diferenças menores completam o quadro. Os digambaras ensinam que Mahavira nunca se casou; os svetambaras, que ele se casou e teve uma filha. Os svetambaras dizem que o embrião de Mahavira foi transferido pelos deuses de uma mulher brâmane para a princesa Trishala, história que os digambaras rejeitam. Os digambaras sustentam que um ser onisciente não precisa de alimento; os svetambaras, que ele continua comendo. Nos templos, as imagens digambaras dos Tirthankaras são nuas e sem adornos, de olhos baixos, enquanto as imagens svetambaras mostram uma veste inferior e muitas vezes têm olhos de cristal incrustados e ricos ornamentos.

Para os jainistas leigos, boa parte da vida religiosa cotidiana é parecida dos dois lados. As famílias seguem uma dieta vegetariana rigorosa que também evita raízes e tubérculos, muitos evitam comer depois do pôr do sol, e ambas as comunidades dão comida e apoio aos monges e monjas itinerantes. O grande festival da estação das chuvas, em agosto ou setembro, difere apenas na data e na duração: os svetambaras celebram os oito dias de Paryushana, enquanto os digambaras seguem com os dez dias de Das Lakshana Parva, dedicados a dez virtudes como o perdão, a humildade e a honestidade. Ambos terminam pedindo perdão a todos os seres vivos por qualquer mal causado durante o ano.

Capítulo III

As tradições hoje

O censo indiano de 2011 contou cerca de 4,5 milhões de jainistas, sem dividi-los por tradição. Os svetambaras são em geral considerados o grupo maior e são mais fortes no Gujarat, no Rajastão e no centro comercial de Mumbai, assim como na diáspora no Reino Unido, na América do Norte e na África Oriental. Os digambaras se concentram em Karnataka, Maharashtra e Madhya Pradesh, e os monges digambaras nus, embora muito reverenciados, são bem menos numerosos que os monásticos svetambaras.

Cada tradição tem suas próprias subdivisões. Entre os svetambaras, os murtipujakas cultuam nos templos, enquanto os sthanakavasis, cujas raízes remontam a uma reforma do século XV, e os terapanthis, fundados em 1760, rejeitam o culto às imagens e são conhecidos por monásticos que usam um pano sobre a boca. Entre os digambaras, os bisapanthis e os terapanthis diferem no ritual dos templos, e o pequeno grupo taranapanthi venera as escrituras em vez de imagens.

Cada tradição tem seus grandes locais de peregrinação: a estátua colossal de Bahubali em Shravanabelagola, para os digambaras, ungida numa cerimônia realizada mais ou menos a cada doze anos, e a colina coberta de templos de Shatrunjaya, em Palitana, e os templos de mármore de Ranakpur e do monte Abu, para os svetambaras. Alguns lugares sagrados compartilhados, como Sammed Shikhar, no Jharkhand, foram objeto de longas disputas judiciais sobre sua administração. Mesmo assim, as duas comunidades também cooperam em obras de caridade, na educação e na defesa dos interesses jainistas, e muitos jainistas leigos veem a distinção como uma questão de costume e não como uma barreira.

Perguntas frequentes

Qual é a diferença entre digambaras e svetambaras?

Os monges digambaras renunciam a toda roupa, enquanto monges e monjas svetambaras usam túnicas brancas. As tradições também diferem quanto a se as mulheres podem alcançar a libertação, quanto à autoridade das escrituras e quanto à forma das imagens dos templos.

Por que os monges digambaras não usam roupa?

Para os digambaras, possuir até mesmo um pedaço de pano é uma posse e um apego, por isso a nudez completa expressa o desapego total e a vitória sobre a vergonha. Os monges levam apenas um espanador de penas de pavão e um pote de água.

Qual grupo é maior?

Os censos indianos não registram essa distinção, mas a tradição svetambara é em geral considerada a maior das duas.

Por que alguns monges jainistas cobrem a boca?

Monges e monjas svetambaras levam ou usam um pequeno pano, a muhpatti, para não ferir com a respiração seres vivos minúsculos. Os monásticos sthanakavasis e terapanthis svetambaras a usam o tempo todo.

Fontes e leituras adicionais

  1. Paul Dundas, The Jains (2nd edn, Routledge, 2002)
  2. Padmanabh S. Jaini, The Jaina Path of Purification (University of California Press, 1979)
  3. Padmanabh S. Jaini, Gender and Salvation: Jaina Debates on the Spiritual Liberation of Women (University of California Press, 1991)
  4. John E. Cort, Jains in the World: Religious Values and Ideology in India (Oxford University Press, 2001)
  5. Jeffery D. Long, Jainism: An Introduction (I.B. Tauris, 2009)